Financimento

Sobre o projeto

O projeto Quilombos Rurais RS e o Gaúcho Negro foi selecionado no edital Juntos pela Cultura do Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria da Cultura do Estado. Criado pelo jornalista Eduardo Tavares e o historiador Gabriel Dienstmann, seu objetivo principal é dar visibilidade aos quilombos do meio rural gaúcho. Os profissionais percorreram mais de 5 mil quilômetros e visitaram 16 comunidades quilombolas em distintas regiões do estado. Descobriram  uma realidade marcada pela resistência e pela mobilização em torno da conquista de direitos e melhoria da qualidade de vida. O resultado do trabalho foi a produção de uma exposição fotográfica com mais de 120 fotos de Eduardo com textos de Gabriel, a gravação em video de depoimentos de lideranças quilombolas e a criação deste site.

O trabalho dos negros  foi fundamental para a construção cultural e para o desenvolvimento econômico e social do Rio Grande do Sul.  Desde o início da colonização portuguesa na região a mão negra esteve presente em quase tudo que foi por aqui criado. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, dezenas de milhares de mulheres e homens foram trazidas da África para trabalhar como escravos no sul do Brasil. Provenientes de distintas nações africanas (Angola, Benguela, Cabinda, Congo, Mina, Moçambique, Monjolo, Nagô, Rebolo, e outros), eles trouxeram consigo uma cultura rica e diversa: religiosidade, música, danças, festividades, culinária, práticas tradicionais de artesanato e construção, saberes e fazeres na agricultura, pecuária e em diversos outros ofícios rurais e urbanos. Em todas as regiões do estado a presença negra é marcante, apesar de pouco reconhecida e valorizada em nossa cultura. Este projeto pretende, também, resgatar o protagonismo dos afrodescendentes na história do Rio Grande do Sul.

As condições opressivas de trabalho a que foram submetidos e a repressão às suas práticas culturais, tanto durante a escravidão como após a abolição, fez com que os afrodescendentes que para cá vieram constituíssem distintas formas de resistência e autoafirmação da sua cultura. O aquilombamento foi uma delas. Ao longo da história do nosso estado foram formadas centenas de comunidades quilombolas, no campo e na cidade. Nessas comunidades, negros e negras puderam viver em liberdade e organizar-se segundo a sua própria  cultura, preservando aspectos étnicos e identitários. Em vários locais, outros quilombos integraram-se ao seu entorno, se miscigenaram, participaram de intercâmbios sociais e culturais entre comunidades negras, de indígenas e de imigrantes europeus.

Os primeiros registros da existência de quilombos remontam ao século XVI no Brasil. Até o século XIX, o Estado brasileiro e as famílias escravocratas que dominavam o meio rural promoveram incursões militares que levaram à repressão e dizimação de quilombos e à morte ou à reescravização dos seus integrantes. Ao longo do século XX, essas comunidades quilombolas seguiram tendo de enfrentar ação de latifundiários, que foram tomando as suas terras, obrigando-os a migrarem para outras localidades ou a sofrerem perdas territoriais.

Após séculos de escravidão, o Brasil foi o último país das Américas a abolí-la, no ano de 1888. A abolição da escravatura, contudo, não foi seguida por nenhuma medida compensatória ou de combate à discriminação e à desigualdade racial no Brasil. A Constituição Federal de 1988, pela primeira vez na história do Brasil, reconheceu o direito das comunidades quilombolas à titulação de suas terras. A conquista foi resultante de uma ampla mobilização do Movimento Negro ao longo das décadas de 1970 e 1980. Trata-se de um dos primeiros passos que o Estado brasileiro deu na direção da reparação da dívida histórica de nossa sociedade para com os negros do país. Contudo, para assegurar o direito à titulação, os quilombos têm que se mobilizar, pressionar  os órgãos do poder público e enfrentar a oposição da oligarquia rural e políticos conservadores. O processo é longo e, na grande maioria dos casos, segue sem resolução. Das 169 comunidades quilombolas que existem no Rio Grande do Sul apenas 4 foram tituladas até o momento.

Apesar da dificuldade em obter titulação, o avanço da luta quilombola trouxe diversas conquistas para essas comunidades. No Rio Grande do Sul, a partir do final da década de 1990 e início dos anos 2000, os quilombos rurais passaram a se organizar e se mobilizar pela conquista de reconhecimento e direitos. A articulação dos movimentos sociais em torno dos quilombos foi fundamental para dar o impulso inicial à luta. Principalmente a de alguns setores do Movimento Negro Urbano, que deram auxílio na organização das Associações Comunitárias quilombolas. Através dessas associações, os quilombos conseguiram acessar diversas políticas públicas e ter a garantia de direitos sociais assegurados constitucionalmente , perceptível nas comunidades quilombolas visitadas neste projeto. Os problemas enfrentados por essas comunidades ainda são muitos, sobretudo devido ao espaço reduzido de suas terras, à ida das gerações mais novas à cidade em busca de emprego e às dificuldades em se manter a organização política. À essas questões vieram se somar, ainda, os retrocessos que estão sendo impostos pelo novo governo federal.

Os autores do projeto declaram: “acreditamos que dar visibilidade aos quilombos rurais de nosso estado, resgatando as suas especificidades, a riqueza de suas práticas culturais, sociais e produtivas, poderá contribuir para a luta pela conquista do reconhecimento dessas comunidades. Agradecemos a todos aqueles que tornaram possível o desenvolvimento deste projeto: ao Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos – IACOREQ, à Cooperativa Terra de Quilombos, às Associações Comunitárias Quilombola, à Federação das Associações das Comunidades Quilombolas do Estado, ao Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da UFRGS. E, em especial, às lideranças e famílias quilombolas que nos receberam com muita hospitalidade e com deliciosas comidas pelas comunidades que passamos. Eles são os verdadeiros protagonistas dessa história”.

Os Quilombos